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Imóveis da Caixa com 90% de desconto: por quê?

Um apartamento de 43 m² em Cordovil, zona norte do Rio, avaliado pela Caixa em R$ 133.399,87, à venda por **R$ 13.339,98**. A conta é fácil de conferir: é exatamente um décimo. O desconto, **90,01%**, é o maior de todo o acervo.
Anúncio assim parece erro de sistema ou pegadinha. Não é nenhum dos dois. Na lista atual existem 71 imóveis com 90% ou mais de desconto no Brasil, um grupo pequeno, com endereço concentrado e regras muito repetitivas.
Três perguntas explicam esse grupo inteiro: por que o desconto para em 90% e não passa disso, por que 68 dos 71 estão num único estado, e por que nenhum deles aceita financiamento. As três respostas vêm do mesmo mecanismo.
Atenção à data: esta lista muda todo dia
Os números deste post vêm da lista pública da Caixa atualizada em 30 de agosto de 2026. Imóvel com desconto extremo é justamente o que mais atrai proposta, então esse grupo muda de composição o tempo todo.
Qualquer imóvel citado aqui pode já ter sido vendido quando você estiver lendo. Use o texto para entender o mecanismo, que não muda, e confirme preço e disponibilidade no site de vendas da Caixa antes de qualquer decisão. Um desconto de 90% que sumiu da lista não volta pelo mesmo preço.
O retrato do grupo
Os 71 imóveis com 90% ou mais de desconto, em cinco números da lista atual:
- 68 estão no Rio de Janeiro. Os outros três: dois no Ceará, um no Acre.
- 61 estão numa única cidade: São Gonçalo, na região metropolitana do Rio.
- 58 são casas, 12 são apartamentos, e há uma gleba urbana.
- 63 estão em venda direta online, os outros 8 em venda online.
- Nenhum aceita financiamento. Zero de 71.
O mais barato do grupo é uma casa de 1 quarto na Amendoeira, em São Gonçalo, por R$ 7.050, avaliada em R$ 70.500. Dá para vê-la na busca pelo número do imóvel, e para listar o acervo inteiro ordenado pelo maior desconto, onde esse grupo aparece no topo.
Resposta 1: por que o desconto para nos 90%
Repare num detalhe da lista: o maior desconto do acervo é 90,01%, e logo abaixo dele há dezenas de imóveis entre 90,00% e 90,01%. Não existe imóvel com 93%, 95%, 97%. A régua para em 90%.
Isso indica piso de política de venda, não coincidência. O imóvel entra na fila de modalidades, e a cada etapa sem comprador o preço mínimo cai: leilão SFI, licitação aberta, venda online, venda direta. O desconto acumula degrau por degrau até o limite que a Caixa aceita, e o limite prático que aparece nos dados é um décimo da avaliação.
Os 90% não são um prêmio escondido. São a marca de que aquele imóvel percorreu a fila inteira sem ninguém querer. Cada degrau vencido é um mês, ou vários, em que o imóvel ficou publicado, visível para qualquer interessado do país, e ninguém fez proposta nem pelo preço anterior.
Resposta 2: por que quase todos estão em São Gonçalo
O Rio de Janeiro já concentra um em cada três imóveis do acervo, então seria natural liderar aqui também. Mas 68 de 71 é concentração de outra ordem, e 61 numa única cidade pede explicação própria.
São Gonçalo reúne os ingredientes do desconto extremo ao mesmo tempo: volume enorme de casas populares financiadas e retomadas (1.908 imóveis na lista atual, segunda cidade do país), procura baixa em relação à oferta, e imóveis pequenos, de 1 quarto, difíceis de revender. Muita oferta parecida disputando pouco comprador faz os imóveis descerem a fila juntos, em lote.
O resultado prático: quem pesquisa desconto máximo no Brasil está, na prática, pesquisando São Gonçalo.
Resposta 3: por que nenhum aceita financiamento
Zero em 71 não é azar. Imóvel que chegou ao fundo da fila costuma carregar exatamente o que trava crédito bancário: ocupação pelo antigo dono ou por terceiros, dívida de condomínio e IPTU, pendência de documentação.
É o espelho do que os dados mostram no grupo oposto: os imóveis financiáveis têm mediana de preço quase duas vezes maior que os à vista. Documentação limpa custa caro; desconto de 90% cobra em risco o que não cobra em dinheiro.
A faixa logo abaixo: onde há mais escolha
Parar nos 90% é olhar um grupo de 71 imóveis. Um degrau abaixo, entre 80% e 90% de desconto, existem outros 94 imóveis, e a lógica é a mesma, com duas diferenças que importam.
A primeira é geográfica: a faixa dos 80% se espalha mais pelo país, em vez de se concentrar quase toda em São Gonçalo. A segunda é de perfil: nela aparecem apartamentos em capitais, incluindo o piso do Rio de Janeiro, um apartamento de 44 m² em Cordovil com 85,6% de desconto, que é o imóvel mais barato entre as 27 capitais.
Quem procura desconto extremo com um mínimo de escolha costuma achar mais opção nessa faixa do que no topo absoluto. Vale ordenar a busca pelo maior desconto e descer a lista, em vez de olhar só as primeiras linhas.
O contraponto: a conta que o desconto não mostra
O apartamento de Cordovil custa R$ 13.339,98. Só que o preço da etiqueta não é o custo do negócio.
Sobre ele ainda incidem ITBI, escritura e registro, que não caem junto com o desconto. Se houver dívida de condomínio, ela pode passar de dez mil reais sozinha em poucos anos de atraso. Se houver morador, a imissão na posse custa tempo, advogado e paciência, sem data garantida para acabar.
Em resumo: nos imóveis de 90%, o desconto não elimina o custo, ele troca a moeda. Você paga pouco em dinheiro e paga o resto em risco, burocracia e tempo. Para quem sabe precificar essas três coisas, pode ser um bom negócio. Para quem não sabe, é só uma etiqueta bonita.
O que conferir antes de um lance nessa faixa
- Visite o imóvel por fora e converse na vizinhança. É o jeito mais barato de descobrir se há
- Peça a matrícula atualizada no cartório e procure ônus, penhora e bloqueio.
- Levante as dívidas de condomínio e IPTU com administradora e prefeitura, antes da proposta.
- Leia o edital inteiro, em especial quem paga cada dívida e o prazo de pagamento.
- Orce a desocupação com um advogado, se houver qualquer sinal de ocupação.
- Compare com o preço de rua, não com a avaliação. Em região de baixa procura, a avaliação
Vale a pena caçar os 90%?
Faz sentido para quem conhece a região metropolitana do Rio, tem o valor à vista, reserva para custos extras e estômago para negociar desocupação. Nessa combinação rara, comprar por um décimo da avaliação dá margem para absorver quase qualquer surpresa.
Não faz sentido para quem depende de financiamento, mora longe e não pode acompanhar o processo, ou precisa do imóvel pronto em prazo definido. Para esse perfil, o caminho é a faixa dos imóveis financiáveis, onde o desconto é menor e a previsibilidade, muito maior.
No fim, os 90% de desconto funcionam como um teste honesto do leilão inteiro: o preço diz o quanto o mercado desistiu do imóvel. Quem entende por que todos desistiram, e resolve o problema que afastou os outros, é quem transforma a etiqueta em negócio.
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